Marca do Crea-PR para impressão
Disponível em <https://www.crea-pr.org.br/ws/arquivos/31402>.
Acesso em 10/07/2020 às 22h27.

Engenheiros paranaenses desenvolvem metodologia inédita no Brasil para avaliar impacto ambiental

O trabalho foi desenvolvido para diagnosticar os danos provocados pelo rompimento da barragem de Mariana, Minas Gerais

26 de maio de 2020, às 11h54 - Tempo de leitura aproximado: 4 minutos

O rompimento da barragem de Fundão, da mineradora Samarco, em Mariana (MG), no dia 5 de novembro de 2015, provocou a morte de 19 de pessoas. A lama inundou casas no distrito de Bento Rodrigues e outros pequenos distritos ao longo dos rios também foram atingidos, causando grave impacto ambiental. Estima-se que foi liberado na natureza o equivalente a 25 mil piscinas olímpicas de resíduos – uma mistura de óxido de ferro, água e muita lama. Em março de 2017, o Lactec, um dos maiores centros de ciência e tecnologia do país com cinco unidades no Paraná, passou a realizar, junto ao Ministério Público Federal (MPF) de Minas Gerais, a avaliação dos danos decorrentes do rompimento da barragem de rejeitos de minério.

O Diagnóstico Socioambiental da Bacia do Rio Doce e Região Costeira Adjacente envolveu aproximadamente 250 profissionais das mais diversas áreas, sendo 56 deles de modalidades ligadas ao Crea-PR (Engenharias Civil, Agronômica, Ambiental, Elétrica, Cartográfica e de Agrimensura, Química e Florestal, Geologia e Geografia). Três gerentes de segmento e quatro de área são Engenheiros. Outros 42 integram a equipe técnica (executora e de campo). Além disso, dos 56 estagiários do projeto, 19 são das Engenharias. As equipes contam ainda com especialistas de outras áreas, como Biólogos, Oceanólogos, Arqueologistas e até Economistas pois, além de verificar os impactos na biodiversidade, há o trabalho de valoração econômica dos danos ambientais.

O estudo está na reta final e é possível constatar que os profissionais das Engenharias, Agronomia e Geociências contribuíram para a aplicação de uma nova metodologia de análise. A inovação foi necessária porque, até 2015, o Brasil não tinha registros de um desastre de tamanha proporção.

Os Engenheiros pesquisaram técnicas adotadas em outros países e encontraram, como referência para o trabalho, a avaliação dos danos ambientais provocados pela explosão da plataforma Deepwater Horizon, em 2010, no Golfo do México. Cerca de cinco milhões de barris de petróleo foram derramados no oceano, um dos piores desastres ambientais da história dos Estados Unidos.

Após a pesquisa de referências internacionais, a primeira etapa desse novo método no Brasil foi a criação de uma linha-base, uma análise de como era a região antes do rompimento da barragem, para comparar com os aspectos após o acidente.

Diferentemente de outros casos, em que a linha-base é feita antes de o evento acontecer, foi preciso estudar a região com dados secundários. Foram utilizadas imagens aéreas, estudos de solo, fauna e flora e listados os possíveis danos que teriam sido causados pelo desastre na barragem. Em seguida, as equipes foram a campo, para levantamento de informações e as devidas comparações. Dados qualitativos e quantitativos foram avaliados com softwares.

A Engenheira Ambiental Gleiciane Fernanda de Carvalho Blanc (que integrou inicialmente a equipe para trabalhar na área de valoração econômica dos danos) é a atual responsável pela coordenação técnica do projeto e ressalta algumas características do trabalho, como a atuação em conjunto e a integração dessas diversas áreas do conhecimento.

“Quando começamos, não havia base técnica de desastre de tamanha dimensão no Brasil. Tivemos que nos basear em estudos de outros países, entender como foram realizados e adaptar ao que é permitido pela legislação brasileira, ou seja, criamos algo novo para nossa realidade até então. Temos um leque de profissionais das Engenharias, entre outras áreas, para fazer o diagnóstico”, relata a coordenadora, que destaca ainda o ineditismo e inovação da metodologia desenvolvida para a análise de danos.

Fernando Camargo da Silva, Engenheiro Florestal, é responsável pela parte de Ambiente Terrestre. Ele coordena uma equipe formada por Engenheiros Agrônomos, Civis, Ambientais, Químicos e Florestais, Geólogos e Geógrafos, que atuam em pesquisas sobre solos, flora, fauna e atmosfera.

Fernando mostra-se feliz em afirmar a percepção de que a restauração florestal é um dos pontos-chave da recuperação da bacia do Rio Doce. “Restaurando as florestas, conseguiremos recuperar os outros elementos. Os profissionais da área tem um papel importante para entender os efeitos do desastre e o que fazer para amenizá-los ou corrigi-los”, observa.

O Engenheiro Florestal ressalta que o diagnóstico socioambiental foi um grande desafio. “Tivemos que lançar mão de ideias, inovar em metodologias que poderiam trazer resultados contundentes, com modelagens de biodiversidade, de serviços ecossistêmicos, para verificar a perda de qualidade da fauna e flora, por exemplo”, cita Fernando.

Para a coordenadora técnica do projeto, o que ficará após a conclusão do trabalho é um legado para os pesquisadores. “De maneira geral, a metodologia desenvolvida é o legado. Não desejamos que um evento como este se repita, mas, na inevitabilidade de ocorrer, teremos uma base sólida para aplicar”, reflete a Engenheira Florestal Gleiciane.

O Diagnóstico Socioambiental da Bacia do Rio Doce e Região Costeira Adjacente está na fase final. Os resultados deverão ser encaminhados ao MPF no início do segundo semestre e as informações passarão a ser públicas no final do ano, provavelmente. Por enquanto, os dados são confidenciais.


Comentários

  1. Márcia SChreiber disse:

    Parabéns para equipe da Lactec que faz um trabalho com responsabilidade e inovação para recuperar o meio ambiente.

Deixe um comentário

Comentários com palavras de baixo calão ou que difamem a imagem do Conselho não serão aceitos.

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *