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Acesso em 21/09/2020 às 12h30.

Crea-PR debate as Novas Diretrizes Curriculares Nacionais de Engenharia

6 de agosto de 2020, às 11h46 - Tempo de leitura aproximado: 11 minutos

Os debates em torno da implementação das Novas Diretrizes Curriculares Nacionais(DCNs)  para os cursos de graduação em Engenharia terão continuidade nesta quinta (6), às 16 h, por meio de uma live promovida pelo Crea-PR em seu Facebook. Entre os participantes, estão, inclusive, alguns dos especialistas que representaram as instituições na comissão interinstitucional constituída para tratar do tema, após a aprovação da Resolução nº 2/2019 pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), em abril do ano passado, e que foram designados durante o fórum que a Abenge organizou com apoio do Confea alguns meses depois. Segundo eles, é provável que o prazo de três anos para a implementação da norma não seja completamente viável, apesar dos avanços já promovidos por algumas instituições de ensino.

“Acredito que este evento trará muitos esclarecimentos para acadêmicos, docentes e principalmente para coordenadores de cursos sobre a implantação das novas diretrizes curriculares. Os debatedores são pessoas experientes e diretamente envolvidas no processo educacional da engenharia”, define um dos participantes, o engenheiro civil Dante Alves Medeiros Filho.

As atualizações das diretrizes atingem, segundo o presidente da Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), cerca de 80% dos cursos, que envolvem em torno de 70 habilitações e suas respectivas ênfases, constituindo cerca de 250 títulos de engenheiros.  “O Sistema Confea/Crea confere habilitações em cerca de 120 títulos de engenheiros. As diretrizes foram homologadas em 24 de abril de 2019 e vigoram a partir de então. As Instituições de Ensino Superior (IES) têm três anos para se adequarem às diretrizes. Com essa pandemia, acredito que esse prazo possa ser ampliado”, acrescenta o engenheiro civil Vanderli Fava de Oliveira.

“Em junho de 2019, organizamos o fórum com o objetivo de tentar criar formas de implantação com uma comissão coordenada pela Abenge, Confea e CNI, e presidida pelo Conselho Nacional de Educação. Essa coordenação se juntou com mais 45 instituições, Creas e instituições de ensino e associações nacionais (veja algumas delas) que, de junho de 2019 a fevereiro deste ano, trabalharam e produziram um relatório nacional reunindo orientações para esta implantação das DCNs. Inclusive,  ao participar dessa discussão, o Confea colheu subsídios para debater no Sistema o que será preciso mudar no sistema de atribuição profissional, em decorrência da alteração dessas diretrizes. Internamente, o Sistema ainda vai discutir mais”, descreve o presidente da Abenge, informando que o relatório-síntese dos trabalhos da Comissão encontra-se disponível no site da entidade e que o próximo passo será a implantação de um diálogo mais direto com as demais universidades.

“Vamos reunir as soluções que estão sendo conduzidas, vamos tentar nos ajudar. Tenho participado de várias lives para isso e esperamos chegar ao Cobenge, de 1º a 3 de dezembro, com uma sistematização maior”. Segundo ele, a implementação das Novas Diretrizes Curriculares Nacionais será gradativa, demandando até cinco anos para ser concluída. “À medida que as discussões foram avançando, mudou muito esse entendimento. A Abenge já o discute desde 2002, mas a discussão oficial só foi iniciada em 2015, com a criação de uma comissão no CNE. Será um processo paulatino, não será brusco. Não é uma imposição, poderá haver pressão nas avaliações, mas isso precisa ser feito com muita calma”.

Currículos por competência

O “engessamento” dos cursos, diante de uma ênfase em conteúdos que se mantiveram presumivelmente estáticos ao longo de quase duas décadas  – a última reformulação das DCNs de Engenharia data de 2002 –, é o principal obstáculo a ser transposto nesse processo, segundo os especialistas ouvidos que participarão da live do Crea-PR nesta quinta-feira. “Estamos bastante atrasados nessa migração para as competências, o problema é que não temos o conhecimento generalizado de como ter esses cursos por competência. O curso voltado para o conteúdo exige apenas o conhecimento, enquanto a formação para competência, além do conhecimento, exige habilidades, atitudes, iniciativa”, complementa Vanderli, citando ainda a adoção de metodologias ativas; o acolhimento de ingressantes (com investimento e apoio); o acompanhamento de egressos; a relação das instituições de ensino com as organizações (estágios e sugestões nos projetos de cursos) e o estabelecimento de campos de formação de Engenharia, voltados não apenas para o conhecimento técnico , mas para a inovação e o empreendedorismo, como outras características desse processo.

Os demais participantes ouvidos concordam com essa nova orientação, voltada aos currículos por competência e a outros aspectos pedagógicos. “As diretrizes curriculares estão assentadas sobre fundamentos mais contextualizados e contemporâneos do processo de ensino e aprendizagem. Elas dão ao processo educativo mais flexibilidade, de forma a atender demandas regionais, bem como individualidades dos acadêmicos. Elas preconizam uma aproximação do mundo acadêmico com a realidade, além de valorizar o uso de novas tecnologias no processo educacional. Como dificuldades, temos a grande flexibilização curricular, que deve ser encarada com muita responsabilidade, visando à proposição de projetos pedagógicos que buscam uma formação consistente e coerente dos egressos”, sugere o engenheiro civil Dante Alves Medeiros Filho, professor do Departamento de Informática da Universidade Estadual de Maringá.

“Ninguém nunca fez currículos por competências, só por conteúdos. Poucos trabalhavam com aprendizagem ativa, que é o recomendado atualmente. Cria-se um programa de capacitação permanente dos docentes, enfim há uma série de novidades em que fazemos juntos essa aprendizagem. Trata-se de uma discussão antiga, uma quebra de amarras dos currículos, instrumentos legais que ficavam restritos à legalidade, no MEC, e às atribuições profissionais dos Creas. E a partir dessa discussão reunindo o CNE, a Abenge e o Confea, enfim, todos os atores do processo, esse movimento tomou corpo, em subcomissões que ouviram diversos pontos de vista. Consenso não vai existir nunca, mas acredito que pouco a pouco, na medida do possível, elevaremos o nível de satisfação”, pondera o representante da Associação Brasileira de Engenharia de Produção (Abepro) na Comissão, engenheiro mecânico Gil Eduardo Guimarães.

Professor e consultor em linhas de pesquisa como a Engenharia 4.0, Guimarães considera que o perfil dos alunos mudou, assim como as demandas do mercado, que exigem profissionais mais autônomos e mais capacitados a atender demandas tecnológicas. “Daí a importância de metodologias ativas de aprendizagem e de uma aproximação maior com as empresas. Como coordenador de curso, quando fui indicado para participar da comissão de elaboração das DCNs, já havíamos discutido essa necessidade em vários fóruns”.

Essa “mudança cultural” ainda deverá ter resistências. “Havia um comodismo inconsciente, uma zona de conforto. Acredito que a visão da necessidade de uma formação continuada, de engajamento em capacitações, será determinante para reverter isso. Essa mudança que deveria existir de forma contínua, sobretudo entre os docentes, impactará inclusive os profissionais que já estão no mercado, por eles também precisarem de uma atualização de competências permanente. Os obstáculos vão ser vencidos pelo convencimento das pessoas”, diz, apostando ainda em uma progressiva disseminação de cursos de capacitação.

“As novas diretrizes curriculares atentam para mitigar o problema de segregação entre teoria e prática. Enfatizam a necessidade de o processo de ensino e aprendizagem ser significativo para o aluno. Desta forma, procura trazer o conteúdo acadêmico para a realidade. Esta aproximação entre teoria e prática certamente auxiliará na formação acadêmica com a geração de profissionais mais motivados e instrumentados para tratar os problemas da sociedade”, comenta Dante Alves  Medeiros Filho.

Ex-presidente da Abepro, o engenheiro de produção mecânica Milton Vieira Júnior afirma que já tem visto mudanças na formação por competências, habilidades e atitudes. “Isso tudo depende do conhecimento. Todas as engenharias necessitam de conhecimentos para balizar a formação. As instituições de ensino não podem criar cursos sem base de engenharia”.

Ele acredita que as Novas Diretrizes da Engenharia estão alinhadas com mudanças no mundo tecnológico, mas que demandaram tempo. “Temos projetos avançados para a Educação em Engenharia que condizem com essas mudanças e que podem tornar o debate cada vez mais sério. Vamos precisar de um prazo maior para implantar, mas acho que é inexorável, não dá para nadar contra a maré”.

Papel do Sistema

Milton Vieira Júnior aponta também a importância do papel do Sistema nesse processo. “Acredito que o Sistema vá ter que criar mecanismos para fazer um filtro com uma malha bem fina. A Abepro e outras associações vão ter que criar um conjunto de referências de conhecimento, de fundamentação. A Abepro vem trabalhando nisso desde a Resolução 1010, em 2005, para caracterizar a nossa área e os conhecimentos-base. Essa matriz de conhecimento precisa ser sediada nos Creas, no Confea, que precisa ter um papel ativo nesse processo. E as entidades de classe vão ter que fazer isso sem ser corporativas, sem reserva de mercado. Será preciso também muito trabalho do Cden para promover esse processo, que pode ser conciliado com todos os agentes”, defende.

Na sua visão, Confea, associações e entidades de classe precisam definir “critérios de qualidade” para projetar passos ainda mais avançados, como a acreditação e a certificação profissional, por exemplo. “Na comunidade de engenharia de produção, com uma demanda muito grande por profissionais, você pode ter mecanismos de acreditação e certificação profissional, dos quais as associações podem dar conta. Vai ser algo positivo, vai acelerar cada vez mais o papel dos engenheiros fora da sua caixinha de formação”, sugere Milton, considerando que caberá ao mercado promover a melhor triagem dos profissionais, o que exigiria a plena aplicação da Resolução 1073, que determina que as atribuições sejam dadas pelo conhecimento, enquanto o mercado  exige a competência. “Precisamos evitar as brigas entre nós, ter a mente aberta para que não percamos o nosso lugar para outras profissões como os técnicos, administradores ou arquitetos, mas sem visar apenas à reserva de mercado”, ressalta.

“O sistema profissional é baseado em uma legislação mais antiga, focada em cursos planejados e implantados com o estabelecimento de currículos mínimos e cargas horárias mínimas. Assim, a realização de atribuições profissionais é realizada com base nessa legislação. As novas diretrizes trazem uma concepção diferente de formação baseada em capacidades a serem desenvolvidas pelo aluno, ou seja, fundamentada em competências, habilidades e atitudes. Neste caminho, em um primeiro momento a implantação dessas diretrizes pode trazer algum desconforto na realização das atribuições técnicas. Neste sentido é que o sistema profissional já vem discutindo e promovendo eventos como este de que participaremos na próxima quinta feira, em que juntos, academia e profissionais, procuram soluções na busca da harmonização entre os sistemas acadêmico e profissional”, considera o engenheiro civil Dante Alves Medeiros Filho.

Adaptações e cenários pós-pandemia 

Vanderli Fava e Gil Guimarães consideram que algumas medidas para manter o ensino durante a pandemia da Covid-19 possam contribuir, na prática, para a implementação das Novas Diretrizes Curriculares. “Os alunos tiveram acesso a mais tecnologias ou foram solicitadas mais plataformas de ensino e aprendizagem. Assim, eles experimentaram uma capacidade de adaptação ao novo, que é característica da engenharia e das universidades, uma discussão que une Brasil e Portugal, por exemplo”, sugere Vanderli.

Ele considera ainda que 80 por cento dos cursos de engenharia iniciaram suas adaptações à pandemia em apenas duas semanas. “Até setembro vamos chegar a 98%. Por enquanto, apenas 9% das aulas das universidades públicas são remotas, mas a maioria agora vai se transformar. Depois, o aluno vai precisar fazer as atividades presenciais. Mas esse é um cenário que deverá permanecer até junho do ano que vem. Não sabemos como vai ser, mas acredito que a Agronomia e as outras engenharias estão se adaptando muito bem”.

“A pandemia demostrou que é possível fazer coisas de qualidade de forma remota. Claro que um curso 100% Ead é impossível, a Engenharia exige momentos presenciais, desde que efetivamente agreguem valor ao processo, desenvolvendo habilidades e atitudes que vão fazer a diferença”, considera Gil.

EaD

Para Vanderli, a discussão sobre a formação a distância se tornou muito mais qualificada nos últimos anos e com o advento da pandemia. “As restrições quanto à falta de estrutura e qualidade dos cursos com essa modalidade tendem a diminuir após a pandemia. O engenheiro precisa fazer projetos de soluções, tomando cuidado com a sustentabilidade e outros aspectos”.

Segundo ele, as DCNs não distinguem se o curso é híbrido, ou não. “A legislação não separa. Nós falamos muito mais sobre a qualidade que o curso deve ter. Tem presencial que o curso também deixa a desejar. A qualidade não é privilégio de uma modalidade ou outra. Assim como tem EaD com nota 4 no MEC. Agora, sabemos que tem cursos EaD que deixam a desejar. Vemos manifestações de conselheiros, de representantes do Crea que apontam, com uma certa razão, essa deficiência e que são contra o curso totalmente a distância. E, de fato, nós ainda não temos tecnologia para que o curso seja totalmente a distância. Nem sei se tem algum curso assim”.

Vanderli é complementado por Gil  Guimarães. “Já deveria ter acabado essa diferenciação de modalidades de ensino. O mundo é físico e digital, é híbrido. O ensino já é também. A tendência é que se termine essa diferenciação de modalidades presenciais e a distância para cumprir as competências que se precise”.

 

Fonte: Confea


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