{"id":34510,"date":"2021-01-15T18:58:25","date_gmt":"2021-01-15T21:58:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.crea-pr.org.br\/ws\/?p=34510"},"modified":"2021-01-21T19:51:08","modified_gmt":"2021-01-21T22:51:08","slug":"o-caso-ford-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.crea-pr.org.br\/ws\/2021\/01\/o-caso-ford-no-brasil\/","title":{"rendered":"O caso Ford no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O an\u00fancio do encerramento das atividades da Ford no Brasil suscita quest\u00f5es entre os profissionais da Engenharia acerca da empregabilidade, da ci\u00eancia e tecnologia, do desenvolvimento industrial e do modal de transporte eminentemente terrestre.<\/p>\n<p>Cinco mil funcion\u00e1rios, entre eles engenheiros, est\u00e3o desempregados a partir do fechamento das f\u00e1bricas em Cama\u00e7ari (BA), Taubat\u00e9 (SP) e Horizonte (CE). Essa conta \u00e9 ainda maior, chegando at\u00e9 72 mil afetados, se forem contabilizados os trabalhadores indiretos. Em 2019, a Ford j\u00e1 havia encerrado as atividades da unidade em S\u00e3o Bernardo do Campo (SP), como parte da estrat\u00e9gia de reestrutura\u00e7\u00e3o global da companhia. Estrat\u00e9gia essa que desprezou o mercado dom\u00e9stico. O Brasil, desde fevereiro de 2005, possui legisla\u00e7\u00e3o que cuida da recupera\u00e7\u00e3o judicial das empresas, mecanismo focado na preserva\u00e7\u00e3o de pessoa jur\u00eddica de direito privado, que imp\u00f5e o encerramento das atividades somente em \u00faltimo caso. Isso porque, na dic\u00e7\u00e3o do Constituinte de 1988, a empresa possui fun\u00e7\u00e3o social, isto \u00e9: cria\u00e7\u00e3o de empregos, pagamento de tributos, gera\u00e7\u00e3o de riqueza, contribui\u00e7\u00e3o para o desenvolvimento econ\u00f4mico, social e cultural do entorno, ado\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas sustent\u00e1veis e respeito aos direitos do consumidor.<\/p>\n<p>A quest\u00e3o do setor automobil\u00edstico vem apresentando sinais de agravamento. No final de 2020, a Mercedes-Benz parou de produzir autom\u00f3veis leves, mantendo apenas a manufatura de caminh\u00f5es e \u00f4nibus no Brasil. Outras marcas tamb\u00e9m enfrentam dificuldades no pa\u00eds, onde a crise pol\u00edtica e a oscila\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica afetam diretamente a produtividade das companhias.<\/p>\n<p>A ado\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas p\u00fablicas \u00e9 urgente, portanto, considerando que o ramo automotivo representa cerca de 22% do Produto Interno Bruto (PIB) industrial brasileiro. Se levados em conta seus encadeamentos, o efeito tem amplitude, j\u00e1 que o desempenho do setor pode impactar substancialmente a produ\u00e7\u00e3o de tantos outros segmentos industriais, como os de a\u00e7o, produtos de metal e artigos de borracha e pl\u00e1stico.<\/p>\n<p>O fortalecimento desse significativo segmento econ\u00f4mico demanda esfor\u00e7os no ambiente de neg\u00f3cios com mais credibilidade, seguran\u00e7a jur\u00eddica e uma pol\u00edtica tribut\u00e1ria simplificada.<\/p>\n<p>A recupera\u00e7\u00e3o passa tamb\u00e9m pela implementa\u00e7\u00e3o de programa nacional de desenvolvimento com foco em inova\u00e7\u00e3o, pautado na transi\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica que ocorre no setor automobil\u00edstico mundial. Os ve\u00edculos precisam ser produzidos com maior valor agregado e novas tecnologias de propuls\u00e3o, como motores el\u00e9tricos e h\u00edbridos. Os sistemas devem ser integrados e inteligentes, o que demanda parques industriais com laborat\u00f3rios dedicados a Pesquisa &amp; Desenvolvimento, estruturados em parceria com universidades, centros de pesquisa cient\u00edfica e com participa\u00e7\u00e3o de profissionais brasileiros. Ou seja, h\u00e1 que se investir pesadamente em programas de nacionaliza\u00e7\u00e3o da cadeia automotiva. No mesmo compasso, esse lament\u00e1vel epis\u00f3dio da Ford revela a necessidade de diversificar nosso modal de circula\u00e7\u00e3o de transporte terrestre para o aquavi\u00e1rio e o ferrovi\u00e1rio, giro necess\u00e1rio que ir\u00e1 fomentar emprego e renda, em raz\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de ferrovias, portos e potencializa\u00e7\u00e3o da navega\u00e7\u00e3o de cabotagem.<\/p>\n<p>Acerca do programa de nacionaliza\u00e7\u00e3o, h\u00e1 o exemplo da Alemanha. Por l\u00e1, o setor automobil\u00edstico recebe expressiva aten\u00e7\u00e3o do governo. Em 2011, foi inaugurado o plano Ind\u00fastria 4.0, que abrange a internet das coisas e sistemas ciberf\u00edsicos. No ano retrasado, o pa\u00eds europeu lan\u00e7ou um segundo projeto nacional. Desta vez, com estrat\u00e9gias para ampliar a competitividade da ind\u00fastria local diante da acirrada concorr\u00eancia de pa\u00edses como os Estados Unidos. Com foco em 2030, a medida prev\u00ea impulsionar o ramo que responde pela gera\u00e7\u00e3o de quase um quarto do PIB alem\u00e3o e registra aumento anual na cria\u00e7\u00e3o de empregos.<\/p>\n<p>Em terras brasileiras, o programa do governo requer remodelagem e regras claras. A ind\u00fastria de ve\u00edculos recebe benef\u00edcios desde que se instalou em 1957 no pa\u00eds. Nas \u00faltimas tr\u00eas d\u00e9cadas, subs\u00eddios tribut\u00e1rios e financiamento de bancos p\u00fablicos foram concedidos por meio dos programas C\u00e2mara Setorial Automotiva, Regime Automotivo Brasileiro, Inovar Auto e Rota 2030.<\/p>\n<p>Mais do que incentivos, esses projetos deveriam ter oportunizado a competitividade do setor frente \u00e0s pot\u00eancias estrangeiras, por meio da sofistica\u00e7\u00e3o de produtos e do aumento da efici\u00eancia. Deveriam ter orientado a manufatura para o mercado externo, o que teria minimizado os efeitos da recess\u00e3o interna de 2014-2016 e da estagna\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de 2017-2019 para o segmento. Em vez disso, esses quatro planos se desdobraram em ren\u00fancia fiscal da ordem de R$ 69 bilh\u00f5es, entre os anos 2000 e 2021.<\/p>\n<p>\u00c9 sabido que, com incentivo fiscal, a probabilidade de gera\u00e7\u00e3o de emprego e renda \u00e9 maior. Mas esse resultado somente pode ser alcan\u00e7ado a partir de um programa com prazos para redu\u00e7\u00e3o gradual dos benef\u00edcios oferecidos pelo Estado. O cronograma de subs\u00eddios precisa ter dia para acabar a fim de que a empresa amadure\u00e7a sua capacidade produtiva e ganhe autonomia financeira. De outro modo, o projeto governamental \u00e9 ineficiente j\u00e1 na origem.<\/p>\n<p>Aqui as fabricantes \u2013 majoritariamente multinacionais com matriz sediada fora do territ\u00f3rio brasileiro \u2013 s\u00e3o beneficiadas com descontos em Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) e Imposto sobre Importa\u00e7\u00e3o. Estima-se que a ajuda federal neste ano para o ramo automobil\u00edstico ser\u00e1\u00a0de R$ 5,9 bilh\u00f5es. Com esse montante seria poss\u00edvel garantir que 20 milh\u00f5es de brasileiros recebessem o aux\u00edlio emergencial de R$ 300 por mais um m\u00eas. Somado a isso, h\u00e1 o abatimento na cobran\u00e7a de impostos regionais das companhias automotivas. Em S\u00e3o Paulo, por exemplo, a previs\u00e3o \u00e9 de que o estado abra m\u00e3o de R$ 343 milh\u00f5es em receitas, ao longo de 2021.<\/p>\n<p>Programas dessa natureza exigem transpar\u00eancia e mecanismos de controle de contrapartidas para evitar o j\u00e1 conhecido cen\u00e1rio, em que os empres\u00e1rios pagam menos taxas com a promessa de realizar investimentos e assegurar postos de trabalho. No entanto, as companhias apenas protegem seus lucros e enviam dividendos para o exterior.<\/p>\n<p>No caso da Ford, h\u00e1 uma outra conta, a do financiamento p\u00fablico. Nos \u00faltimos 19 anos, a empresa recebeu aux\u00edlio financeiro do governo brasileiro de aproximadamente R$ 2 bilh\u00f5es para aquisi\u00e7\u00e3o de novas tecnologias e exporta\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis, sendo no momento R$ 335 milh\u00f5es em empr\u00e9stimos ativos. Vale lembrar, ainda, que, com o encerramento das atividades das plantas automobil\u00edsticas, restar\u00e3o tamb\u00e9m os ativos imobilizados nas cidades em que a Ford operava.<\/p>\n<p>Em 2008, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econ\u00f4mico e Social (BNDES) emprestou R$ 78 milh\u00f5es para fomentar o Programa de Apoio \u00e0 Engenharia Automotiva em Cama\u00e7ari. Para obter a linha de financiamento, a montadora teve que garantir que iria manter a m\u00e3o de obra qualificada em seus quadros na Bahia, como os 1.050 engenheiros contratados. Agora \u00e9 obrigat\u00f3rio que o BNDES cobre com rigor uma solu\u00e7\u00e3o para o desemprego ocasionado, fazendo a Ford cumprir as cl\u00e1usulas-padr\u00e3o do contrato relacionadas aos postos de trabalho. Aos sindicatos que representam os profissionais das Engenharias e Geoci\u00eancias, imp\u00f5e-se vigil\u00e2ncia e esfor\u00e7os concretos em defender na via judicial os interesses dos trabalhadores, visando resguardar os ativos necess\u00e1rios para quita\u00e7\u00e3o dos cr\u00e9ditos trabalhistas ante as demiss\u00f5es em massa que se avizinham.<\/p>\n<p>Do ponto de vista da responsabilidade social, a recoloca\u00e7\u00e3o desses profissionais altamente qualificados caberia \u00e0 Ford. No mundo corporativo, empresas modernas assumem o compromisso de identificar vagas no mercado que atendam \u00e0s expectativas do colaborador demitido. Com adequadas ferramentas de recursos humanos, elas minimizam os impactos emocionais e financeiros do desligamento n\u00e3o apenas para os funcion\u00e1rios, mas tamb\u00e9m para os familiares. Adicionalmente, universidades e centros de aprendizagem profissional coparticipam da capacita\u00e7\u00e3o dos demitidos no sentido de atualiz\u00e1-los para o novo of\u00edcio, motiv\u00e1-los a potencializar as habilidades e recoloc\u00e1-los o quanto antes no campo de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Por fim, a valoriza\u00e7\u00e3o da m\u00e3o de obra especializada, da capacidade intelectual e das empresas legitimamente brasileiras \u00e9, sem d\u00favida, requisito para progresso da cadeia automotiva nacional. Por isso, ela precisa ser alvo de pol\u00edticas de desenvolvimento produtivo e tecnol\u00f3gico. Do contr\u00e1rio, o Brasil jamais ir\u00e1 experimentar seu real potencial econ\u00f4mico.<\/p>\n<p><strong>Conselho Federal e Conselhos Regionais de Engenharia e Agronomia \u2013 Confea\/Creas<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O an\u00fancio do encerramento das atividades da Ford no Brasil suscita quest\u00f5es entre os profissionais da Engenharia acerca da empregabilidade, da ci\u00eancia e tecnologia, do desenvolvimento industrial e do modal de transporte eminentemente terrestre. 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