Waldemar Niclevicz no EPEC: A escalada do “Everest pessoal”
13 de novembro de 2025, às 11h00 - Tempo de leitura aproximado: 4 minutos

O alpinista brasileiro Waldemar Niclevicz, o primeiro a levar a bandeira do país ao topo do Monte Everest, utilizou a analogia das grandes montanhas para inspirar os participantes do 51º Encontro Paranaense das Entidades de Classe (EPEC) do Crea-PR.
Em sua palestra, Niclevicz transformou o cume mais alto do mundo em metáfora para o sucesso profissional e pessoal nas áreas das engenharias, agronomia e geociências. A palestra abriu o segundo dia do evento que acontece no Grand Carimã Resort & Convention Center, em Foz do Iguaçu.
Niclevicz compartilhou a intensa emoção que um ser humano sente ao realizar um grande sonho. Ele descreveu a sensação gratificante do esforço recompensado após superar um desafio que a maioria considera impossível.
Ele lembrou de seu retorno a Katmandu, no Nepal, Ásia, após a escalada vitoriosa do Everest em 1995. Ao se olhar no espelho, ele viu a imagem de um homem exausto e 10 quilos mais magro, mas profundamente emocionado. “O Brasil conseguiu chegar no topo da montanha mais alta do mundo”, foi quando Niclevicz se deu conta do tamanho da façanha realizada.
Mas a ideia de que o alpinista de alta montanha é um super-herói foi desmistificada. Pelo contrário: “Eu sou uma pessoa exatamente como você. Então, eu acredito que se eu cheguei no alto do Everest, você também pode chegar”. Ele lembrou que grandes feitos não nascem do acaso, e sim de um processo gradual e de muito esforço. Ele incentivou a plateia a abandonar as desculpas — como a idade ou condições físicas — citando o exemplo de pessoas cegas ou sem membros que alcançaram o cume, provando o que a força de vontade é capaz de fazer.
A montanha interior e a preparação
O palestrante questionou o público sobre onde reside o verdadeiro Everest: “Será que não existe um outro na nossa vida hoje? Na engenharia, na agronomia, no Crea, na sua região, na sua empresa, na sua família ou aí dentro de você?” Para Niclevicz, a montanha que existe dentro de cada um, repleta de medos e inseguranças, “é muito mais difícil de ser escalada do que a montanha de rocha e gelo”.
Ele frisou que o sucesso em qualquer empreitada depende da preparação: “Todas as montanhas do mundo podem ser escaladas, mas é preciso planejamento, estratégia, plano de ação, equipe treinada, unida e focada. E é preciso fazer tudo que for possível para transformar um sonho em realidade. Por quê? Porque absolutamente nada na vida acontece por acaso”, avalia.
O montanhista também ressaltou o poder da persistência, usando sua primeira tentativa fracassada no Pico do Marumbi, no Paraná, quando fugiu de uma cobra, como exemplo. “Nunca, nunca mesmo se conforme com o estado atual das coisas”, explica.
Uma escalada bem-sucedida
Durante a palestra, a fase de execução e as complexas lições de sobrevivência e sucesso aprendidas nas encostas do Everest foram traduzidas para o dia a dia.
Ele insistiu na máxima de que o alpinismo de alta montanha, assim como a engenharia, não é uma aventura, mas uma ciência aplicada, com riscos calculados e consequências sérias. “Escalar o Everest não é uma brincadeira. Construir um prédio não é uma brincadeira. Muita coisa em jogo. Dinheiro, tempo, a sua vida, vida de outras pessoas, não é uma brincadeira”, disse o alpinista, transformando o cume de 8.848 metros em um símbolo da responsabilidade e do rigor exigidos em qualquer grande projeto.
O alpinista fez uma distinção entre o “verdadeiro alpinista” e o “louco” no contexto da engenharia. Ele alertou que a montanha não mata ninguém, mas sim os erros cometidos por aqueles que não avaliam o risco. O verdadeiro alpinista deve ter a capacidade de prever perigos, como avalanches e tempestades, usando indicadores e gráficos, tal como a engenharia faz. “É preciso observação e um banco de dados. Daí as decisões serão muito mais assertivas”, afirmou, incentivando o uso de procedimentos de segurança.
Não Pare no Everest
Relembrando a descida sem oxigênio e a falha de seu equipamento em 1991, Niclevicz reforçou sua principal filosofia: “O melhor alpinista do mundo é aquele que tenta escalar o Everest, mas, infelizmente, por algum motivo, ele não consegue. Mas ele volta para casa, ele continua acreditando no seu potencial”.
O montanhista finalizou com um apelo à continuidade: “Não pare depois que você realizar um grande sonho.” Após o Everest, ele conquistou os Sete Cumes do Mundo, escalou o traiçoeiro K2, e desenvolveu projetos como o Mundo Andino, que combina alpinismo e ações socioeducacionais. Ele usou a vasta lista de suas expedições (incluindo picos na África, Nova Zelândia, Antártida e os 82 picos de 4 mil metros dos Alpes, sendo o Brasil o primeiro país não europeu a fazê-lo) para provar que a escalada do Everest é apenas “o primeiro passo para uma nova escalada.”
Para concluir, o palestrante deixou claro que a decisão de voltar para casa, diante de perigos iminentes, é a maior prova de sabedoria: “Nenhuma montanha vale a vida de um homem. O melhor alpinista do mundo é aquele que volta para casa.” O desafio do engenheiro, assim como o do alpinista, é continuar “nesse sobe e desce da economia e continuar acreditando no seu sonho e no seu propósito”.

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