Degrau na faixa de areia em Matinhos evidencia a importância da atuação multidisciplinar das Engenharias, Agronomia e Geociências
9 de janeiro de 2026, às 15h30 - Tempo de leitura aproximado: 5 minutos

A formação de um degrau na faixa de areia da praia de Matinhos, incluindo trechos de Caiobá, observada após a ressaca registrada no início da semana, reacendeu o debate sobre o comportamento das praias que passaram por obras de engorda no litoral paranaense. O fenômeno, que chamou a atenção de moradores e turistas, reforça um ponto central em intervenções desse porte: obras costeiras exigem planejamento técnico, execução qualificada e monitoramento contínuo, com a atuação integrada de profissionais das Engenharias, da Agronomia e das Geociências.
A engorda da praia de Matinhos integra o Projeto de Recuperação da Orla, conduzido pelo Governo do Paraná, e teve como objetivo ampliar a faixa de areia e reduzir os impactos da erosão costeira sobre a infraestrutura urbana. Concluída em 2022, a obra passou a responder a eventos naturais como marés elevadas e ressacas, fenômenos que fazem parte da dinâmica costeira.
Segundo o Geol. Luiz Fornazzari Neto, compreender essa dinâmica é o primeiro passo para qualquer intervenção no litoral. “As Geociências são essenciais para entender os processos naturais da praia, como o transporte de sedimentos, a erosão e a deposição. Estudos geológicos e oceanográficos permitem identificar a direção e a intensidade das correntes litorâneas, o regime de marés e ondas e as taxas de erosão e sedimentação”, explica. De acordo com ele, essas informações orientam decisões técnicas e contribuem para reduzir impactos indesejados em áreas adjacentes.
A movimentação da areia após ressacas, como a registrada nesta semana, não é um evento isolado. “A praia é um sistema dinâmico, sujeito a variações sazonais e climáticas. Eventos extremos evidenciam a importância do monitoramento contínuo. Os estudos realizados nos projetos ajudam a minimizar retrabalhos e a otimizar o uso dos recursos públicos”, afirma Fornazzari Neto, destacando que todas as intervenções costeiras estão sujeitas a manutenção periódica.
Outro ponto técnico relevante diz respeito à escolha do material utilizado na engorda. O geólogo explica que a seleção da areia considera critérios como granulometria compatível com a areia original da praia, composição mineralógica e origem ambientalmente licenciada, conforme diretrizes da Resolução Conama nº 454/2012. “Esses parâmetros influenciam diretamente a estabilidade da faixa de areia e ajudam a mitigar impactos ecológicos”, pontua.
Do ponto de vista ambiental, o Eng. Amb. Helder Nocko explica que a formação de degraus pode ocorrer tanto em praias naturais quanto em áreas que passaram por engorda. “Os degraus podem acontecer naturalmente, às vezes em menor escala, e também podem ocorrer após a engorda. Trata-se de um fenômeno associado à dinâmica da praia”, observa.
Ele destaca, no entanto, que fatores históricos continuam influenciando o comportamento do litoral. “A retirada da restinga nunca é adequada. A restinga tem papel fundamental na fixação da areia e na proteção física e ecológica da praia. Por isso, a recomendação ambiental é sempre a manutenção dessa vegetação, que é considerada Área de Preservação Permanente”, afirma.
Para o engenheiro ambiental, obras como a engorda não eliminam a necessidade de acompanhamento técnico. “O adequado é ter um monitoramento intenso do perfil praial, com levantamentos topográficos constantes, além do acompanhamento da dinâmica costeira, como altura de maré, ondas, velocidade e direção das correntes. O ideal é contar com equipamentos submersos que façam esse monitoramento de forma contínua”, explica. Ele ressalta ainda que a formação em Engenharia Ambiental contribui tanto para os estudos de modelagem hidrodinâmica quanto para os processos de licenciamento, sempre em articulação com outras áreas do conhecimento.
Já sob a ótica da execução da obra e da proteção urbana, o Eng. Civ. Eduardo Felga Gobbi, que acompanhou de perto o projeto de engorda, reforça que intervenções costeiras são atribuição de um campo específico da Engenharia Civil. “As obras na região costeira são concebidas no âmbito da Engenharia Costeira. A Engenharia Civil tem papel determinante desde a concepção, passando pelo dimensionamento, até o acompanhamento e a manutenção ao longo da vida útil da obra”, afirma.
Segundo ele, a atuação técnica não se limita ao projeto. “A engenharia participa também dos debates sobre a oportunidade da obra, das políticas públicas envolvidas e das decisões da sociedade. Trata-se de uma atuação conjunta, com o poder público, a sociedade civil e outros ramos do conhecimento”, explica.
Sobre o degrau observado após a ressaca, Gobbi ressalta que ajustes podem ser necessários. “Sempre que há intervenção no território, seja em obras costeiras, dragagens de rios ou canais, pode haver necessidade de manutenção, ajustes ou obras complementares. Isso faz parte do ciclo dessas intervenções”, avalia.
O engenheiro civil destaca ainda os benefícios da engorda para a proteção da infraestrutura urbana. “Em regiões onde a ocupação ocorreu sem o pleno entendimento da dinâmica costeira, como em trechos de Matinhos e Caiobá, a engorda tem papel importante na proteção de avenidas, calçadas e edificações, além de contribuir para a manutenção da própria praia, que é base da dinâmica econômica e turística do município”, afirma.
Após a conclusão da obra, o acompanhamento técnico permanece essencial. “É fundamental a participação contínua de profissionais da Engenharia Civil, sempre em conjunto com outras áreas, para avaliar o comportamento da praia e orientar decisões futuras. Monitoramento e manutenção ainda não fazem parte da cultura brasileira como deveriam, mas são indispensáveis, especialmente diante das mudanças climáticas”, observa Gobbi.
O episódio registrado em Matinhos reforça a relevância da atuação contínua e qualificada de profissionais das Engenharias, da Agronomia e das Geociências em intervenções costeiras. Desde os estudos iniciais e o planejamento, passando pela execução da obra, até o acompanhamento e o monitoramento pós-intervenção, o trabalho técnico multidisciplinar permite compreender o comportamento natural da faixa litorânea, interpretar fenômenos como a movimentação da areia após ressacas e orientar decisões baseadas em dados e critérios técnicos. Essa atuação integrada é fundamental para conciliar a dinâmica natural do litoral com a ocupação urbana, a proteção da infraestrutura existente e o desenvolvimento sustentável das cidades costeiras do Paraná.
Consultas Públicas
Excelente exposição, demonstrando o papel de vários profissionais na análise de uma obra de infraestrutura com impactos ambientais, necessidade análises geológicas e monitoramento tecnológico do solo do mar, um projeto bem estruturado e executado, assim como atuação em políticas para o zoneamento. Parabéns os profissionais do Sistema e todas as profissões envolvidas nesses projetos tão importantes e desafiadores!
Uma obra milionária como esta precisa ter trabalho de prevenção contínuo, sou moradora de Matinhos e volte e meia formam degraus na extensão do alargamento, confesso que fiquei apreensiva com aquele mega palco bem próximo do degrau!
Antes de incluír ou excluir especialidades e/ou categorias profissionais no debate, na elaboração e execução dos projetos, há que se aprofundar a visão macro e integrada dos estudos sobre, por exemplo, pode-se prescindir da faixa de restinga ? Simples assim! Ou pode prevalecer os interesses imobiliários. É isso, no fundo, precisa ser um debate aberto e franco enfrentando os dilemas com toda a sociedade
Eng Agr Jairo Macedo/ Guarapuava
Sou surfista desde 1986 e acho que o degrau foi formado devido ao excesso de areia depositada no local para receber o palco. Acho normal e o próprio mar alinharia, como já aconteceu em outras ocasiões depois da engorda.
O palco não deveria estar ali. Entre os 6km de engorda, ali é o pior lugar para ele. E a obra urgente que fizeram, apenas depositando mais areia, fez com que o degrau aumentasse. Mas o que acontecerá depois da temporada? Queremos nos praia de volta, com restinga, limpa e sem tratores
fundamental a participação de profissionais da oceanografia, não citados especificamente na reportagem, talvez por não serem associados ao CREA
Sou morador de Matinhos a vinte e cinco anos. Esperava que a referida engorda aguentar pelo mínimo cinco anos. Parece que a natureza não vai respeitar o que foi feito. O que deu errado?
Por que não foi feito um Quebra-Mar para evitar que as mares destruam a engorda feita?
Como a formação de de graus existe sempre, com obras de engorda ou sem elas, o histórico de estudos de oceanografia física e geologia costeira são fundamentais antes dos empreendimentos. Sem estas avaliações, sempre haverá desperdício de dinheiro (público ou privado), e é uma tremenda insensatez!
Me desculpem os agrônomos, mas é assunto para oceanografia, geologia e engenharia civil/costeira.