Workshop do Crea-PR debate inovação, recursos estratégicos e sustentabilidade nas Engenharias
8 de julho de 2026, às 14h50 - Tempo de leitura aproximado: 7 minutos

A Câmara Especializada de Engenharia Química, Geologia e Minas (CEEQGEM) do Crea-PR promoveu, nesta terça-feira (8), o Workshop de Engenharia Química, Geologia e Minas: Recursos Estratégicos e Propriedade Intelectual. Realizado no Auditório Rosemary Hoffmann Ribani, no Centro Politécnico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba, o evento reuniu profissionais, pesquisadores, docentes e estudantes para debater temas estratégicos relacionados à transição energética, gestão dos recursos naturais, inovação tecnológica e proteção da propriedade intelectual.
Promovido pela CEEQGEM, o workshop contou com o apoio do Departamento de Engenharia Química da UFPR, da Associação dos Engenheiros Químicos do Paraná (AEQP), da Associação dos Engenheiros de Minas do Paraná (AEMPAR), da Associação dos Geólogos do Paraná (AGEPAR), do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), do Laboratório de Análises de Combustíveis Automotivos da UFPR (LACAUT) e da Associação Paranaense de Águas Subterrâneas (APAS).

Realizaram a abertura do evento o professor Luiz Fernando de Lima Luz Júnior, diretor do Setor de Tecnologia da Universidade Federal do Paraná (UFPR), o eng. quím. Camilo Freddy Mendoza Morejon e o eng. amb. Helder Rafael Nocko, presidente em exercício do Crea-PR. Eles destacaram a importância de promover debates técnicos sobre temas que impactam diretamente o desenvolvimento sustentável, a competitividade da indústria, a propriedade intelectual e a valorização das profissões da Engenharia, Geologia e Minas.
Novas possibilidades para o aproveitamento do carvão
A primeira palestra abordou o tema ‘Uso Alternativo do Carvão’, conduzida pelo engenheiro de minas Nilo Schneider e pelo engenheiro químico Ricardo Henrique Kozak.
Durante a apresentação, os palestrantes mostraram o panorama atual desse recurso no país e discutiram as novas perspectivas para o aproveitamento do carvão mineral, destacando que esse recurso pode ir muito além da geração convencional de energia. Foram apresentadas aplicações voltadas à produção de insumos para a indústria química, materiais carbonáceos, fertilizantes, gases industriais e tecnologias de conversão energética, alinhadas à busca por processos mais eficientes e sustentáveis.
Nilo Schneider abordou o tema “O carvão mineral e a produção nacional de fertilizantes”, apresentando um panorama sobre a importância estratégica do recurso para a segurança energética e o desenvolvimento industrial do Brasil. Com quase cinco décadas de atuação no setor mineral, compartilhando sua experiência em pesquisa, extração e beneficiamento de carvão, minério de ferro e ouro, além de projetos industriais em diferentes empresas do segmento, o palestrante destacou a dependência brasileira da importação de gás natural e carvão mineral.
Segundo Schneider, o Brasil importa, em média, entre 30% e 40% do gás natural que consome. Embora o país produza volumes significativos, grande parte dessa produção está associada à extração de petróleo. Em razão de gargalos logísticos e da elevada reinjeção do gás nos poços marítimos, o país ainda depende de fornecedores externos para garantir sua segurança energética. Ele lembrou ainda que, conforme levantamento da Confederação Nacional da Indústria (CNI), divulgado em abril de 2025, o gás natural utilizado pela indústria brasileira está entre os mais caros do mundo.
O palestrante também apresentou dados sobre a importação de carvão mineral. Apenas no primeiro semestre de 2025, o Brasil gastou US$ 967 milhões com a compra do insumo no exterior, tornando-o o 16º principal produto importado pelo país, segundo dados da Fazcomex. Atualmente, o carvão importado abastece principalmente a indústria siderúrgica e o Complexo Termelétrico do Pecém, no Ceará.
Ao final da apresentação, Schneider destacou que a implantação da produção nacional de fertilizantes a partir do carvão mineral no Paraná poderá impulsionar o desenvolvimento regional e fortalecer ainda mais a competitividade da agricultura paranaense. Segundo ele, a adoção dessa tecnologia — inédita no país — abrirá caminho para novas pesquisas sobre o aproveitamento dos diferentes tipos de carvão existentes no Brasil, além de estimular o desenvolvimento de produtos derivados e agregar maior valor à cadeia produtiva nacional.

Ricardo Henrique Kozak complementou a discussão apresentando sua experiência na área de processamento industrial e desenvolvimento tecnológico. Engenheiro químico formado pela UFPR, participou do desenvolvimento de tecnologias ligadas ao processamento do xisto brasileiro e à engenharia de processos industriais, contribuindo para reflexões sobre inovação, eficiência energética e agregação de valor aos recursos minerais.
Ele falou de dados sobre o consumo de combustíveis no Brasil e outros relevantes relacionados ao tema.
Gestão sustentável dos aquíferos
Na sequência, o geólogo Gustavo Barbosa Athayde, professor associado da Universidade Federal do Paraná (UFPR) e diretor científico do Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas (LPH), ministrou a palestra “O Papel da Engenharia Geológica no Uso Sustentável dos Aquíferos Paranaenses”. Especialista em hidrogeologia e consultor da UNESCO em projetos relacionados à governança de aquíferos transfronteiriços, Athayde destacou a importância das águas subterrâneas como recurso estratégico para o abastecimento humano, a agricultura e a indústria.

Durante a apresentação, o palestrante também apresentou o projeto Hidrosfera, iniciativa pioneira voltada ao monitoramento sistemático das águas subterrâneas em aquíferos fraturados, desenvolvida pelo Laboratório de Pesquisas Hidrogeológicas (LPH) da UFPR em parceria com a Itaipu Binacional e o Itaipu Parquetec. Segundo ele, o monitoramento contínuo desses sistemas permite compreender melhor o comportamento dos aquíferos, subsidiando a gestão sustentável dos recursos hídricos e a tomada de decisões voltadas à segurança hídrica.
Athayde ressaltou que a gestão adequada dos aquíferos depende da integração entre conhecimento geológico, planejamento territorial, monitoramento ambiental e políticas públicas, destacando que a atuação dos profissionais da Engenharia Geológica e das Geociências é essencial para garantir a preservação desses recursos para as futuras gerações.
Ao abordar o papel da Engenharia Geológica, explicou que os profissionais das Ciências da Terra são responsáveis por interpretar e traduzir os processos naturais do presente e do passado em modelos conceituais e matemáticos, considerando diferentes escalas, magnitudes e períodos geológicos. Essa capacidade é desenvolvida por meio de sólida formação em geologia, química, física, matemática e atividades de campo, permitindo observar, compreender e prever processos naturais que contribuem tanto para a preservação de vidas quanto para o desenvolvimento econômico.
O geólogo enfatizou ainda que a compreensão das águas subterrâneas — muitas vezes invisíveis à população — é uma das atribuições técnicas fundamentais da profissão. Segundo ele, esse conhecimento possibilita assegurar o uso sustentável dos recursos naturais, alinhado aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), promovendo uma gestão ambientalmente responsável e socialmente justa.
Propriedade intelectual impulsiona a inovação
Encerrando a programação técnica, o engenheiro químico Douglas Alves Santos, gestor da Unidade Regional do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI) no Paraná e pesquisador da instituição, ministrou a palestra “A Propriedade Intelectual no Contexto das Engenharias”.

Durante a apresentação, Douglas destacou que a propriedade intelectual é uma ferramenta estratégica para estimular a inovação, proteger o conhecimento técnico e fortalecer a competitividade de empresas, universidades e centros de pesquisa. Segundo ele, nas engenharias, a inovação não se limita ao desenvolvimento de novos produtos e processos, mas também à capacidade de transformar conhecimento em valor econômico e social.
Com o tema “Da ideia ao ativo estratégico: como a engenharia cria valor além da matéria-prima”, o palestrante explicou que, enquanto a engenharia transforma recursos naturais em riqueza por meio da tecnologia e da inovação, a propriedade intelectual transforma esse conhecimento em um ativo estratégico, capaz de gerar vantagens competitivas, atrair investimentos e impulsionar o desenvolvimento sustentável.
Douglas também apresentou como o registro de patentes, marcas e outras modalidades de propriedade industrial contribui para que pesquisas e soluções tecnológicas cheguem ao mercado com maior segurança jurídica, estimulando a transferência de tecnologia e a inovação em diferentes setores da economia.
Outro ponto abordado foi a importância das tecnologias verdes e dos mecanismos de incentivo à inovação sustentável. O especialista ressaltou que a proteção da propriedade intelectual desempenha papel fundamental no desenvolvimento de soluções voltadas à eficiência energética, à redução dos impactos ambientais e à economia de baixo carbono, incentivando que o conhecimento produzido nas engenharias seja convertido em benefícios concretos para a sociedade.
Espaço para integração e troca de experiências
Ao final das apresentações, os palestrantes realizaram uma mesa redonda para debate e os participantes puderam esclarecer dúvidas sobre os temas abordados, promovendo uma troca de experiências entre profissionais, pesquisadores, docentes e estudantes.


























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