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Acesso em 29/10/2026 às 15h34.
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Toledo inova na geração de biogás por meio de biomassa residual animal

26 de junho de 2014, às 17h46 - Tempo de leitura aproximado: 7 minutos

 

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O município de Toledo, no Oeste do Paraná, está colocando em prática um projeto ambicioso e inovador, que transforma um passivo ambiental (dejetos da pecuária que poluem o solo, o ar e as águas) em ativos econômicos como, por exemplo, biofertilizante, utilizado diretamente na fertilização das culturas de grãos e pastagens (substituindo em parte o adubo químico). E, ainda, o biogás que pode ser utilizado com fins de energia térmica e cocção de alimentos, produção de energia elétrica e como combustível veicular. O projeto de geração de biogás e biometano por meio da construção de biogestores integra o Programa Municipal de Geração de Energia Renováveis.

De acordo com o engenheiro agrônomo Luiz Carlos Balcewicz, que atua na Prefeitura de Toledo, na Assessoria para Captação de Recursos e Relações Institucionais, o município adotou o modelo de biogestor canadense, “mas que também poderia ser chamado de tolendense”. Os dejetos são canalizados para o equipamento – uma construção hermeticamente fechada e revestida por lona de PEAD. A ação de bactérias metagênicas e a ausência de oxigênio provocam a decomposição da biomassa e, consequentemente, a produção do biogás e do biofertilizante. Balcewicz observa que o biogás é composto por vários gases sendo o Metano (CH4 de 60 a 70%), o principal, o Gás Carbônico (CO2 de 25 a 35%) e outros gases (até 5%) com destaque para o Gás Sulfídrico (H2S), muito nocivo para motores, máquinas e equipamentos.

A energia gerada, tanto a térmica para aquecimento dos pintainhos (em substituição à lenha) e cocção de alimentos (em substituição ao GLP) quanto à elétrica (em substituição à fornecida pela concessionária), é utilizada internamente na propriedade rural. “Isso significa redução do custo de produção e, principalmente, maior conforto e qualidade de vida para a família rural. No caso do aquecimento dos pintainhos o processo é automatizado e não mais necessita de uma pessoa para abastecer de lenha, periodicamente a fornalha, inclusive nas frias madrugadas”, pontua Balcewicz.

Segundo o engenheiro agrônomo Balcewicz, caso o produtor rural queira vender a energia elétrica gerada em sua propriedade deverá atender uma série de normativas técnicas e legais de forma que possibilite a entrega dessa energia junto à concessionária estadual, por meio do sistema de Geração Distribuída (GD). “A burocracia e dificuldades ainda são significativas, entretanto, espera-se que em breve o processo seja simplificado, sem perder, contudo, a necessidade de se manter os cuidados com a segurança e a redução dos riscos, para o bem de todos”, analisa.

Os custos para a construção de um sistema de biodigestão individual são variáveis conforme a quantidade de animais e da espécie animal (suínos e vacas leiteiras), em cada propriedade. O dimensionamento do biodigestor deve atender o tempo de retenção dos dejetos, cerca de 30 dias, necessário para completar o processo de biodigestão. Quanto aos custos para implantação de um projeto de condomínio de agroenergia, que envolve diversas unidades produtivas, variam de acordo com a área a ser contemplada, número de produtores envolvidos, distância a ser percorrida pelo biogasoduto principal, enfim, varia conforme sua complexidade. “Considerando os valores de custos médios calculados para dezenas de propriedades do município de Toledo, o tempo para retorno do valor investido (payback) tem sido inferior a cinco anos para a maioria dessas propriedades. Há casos em que o retorno do investimento ocorre em menos de três anos”, constata.

Balcewicz esclarece que a produção diária de dejetos em Toledo varia conforme a idade, peso e espécie animal. Como exemplo, segundo a literatura, em média, um suíno em terminação (com peso de 100kg) produz cerca de 3,2 kg de dejetos por dia, que equivalem a 0,25 m3 de biogás/dia. Um lote de 1000 animais deste porte produz 250 m3 de biogás que significam 165 m3 de biometano. Tal volume é suficiente para percorrer mais de 2000 quilômetros, pois há inúmeros testemunhos de veículos que percorrem mais de 12 km/m3 de biometano.

Em Toledo, vários projetos estão em planejamento. Balcewicz expõe que os três primeiros projetos contemplam cerca de 70 famílias, que produzirão aproximadamente 15 mil m3 de biogás por dia, o que significa quase 10.000 m3 biometano/dia, considerando-se 66% o percentual de metano existente no biogás. “É oportuno citar que se projeta conquistar a universalização dos sistemas de biodigestão para todas as unidades produtivas pecuárias do município até 2025”, calcula.

Em termos monetários, Balcewicz coloca que, valorando em R$ 1,26/m3 biometano (cerca de 70% do GNV – R$ 1,70/m3) e considerando o rebanho da região, cuja capacidade de produção supera 110 mil m3 de biometano/dia, significa que poderá ocorrer a injeção de mais de R$ 50 milhões na economia do município, anualmente, ou seja, um incremento de 15% no orçamento do município.

Balcewicz garante que o biogás e o biometano trazem contribuições importantes para a melhoria da qualidade de vida e conforto das famílias rurais. Dentre elas, o engenheiro agrônomo cita a eliminação de odores (mau cheiro) e redução de vetores de doenças (moscas, principalmente), aquecimento de aves e suínos, utilização em substituição ao GLP no fogão, maior higienização de equipamentos de ordenha mecânica e utensílios em geral (melhor preço do leite), mais ganhos com a redução dos custos de produção (biofertilização dos solos e das culturas) e produção de energia elétrica própria, para autoconsumo; e além de tudo isso, amplia as perspectivas de investimentos nas propriedades.

Balcewicz esclarece, no entanto, que, por tratar-se de uma tecnologia relativamente nova no país, o uso da energia a partir do biogás/biometano necessita de legislação federal e estadual mais condizente com a atual realidade do setor produtivo. “Faz-se necessário assegurar o direito do uso por parte dos produtores rurais do biometano (biogás filtrado) produzido em sua propriedade, inclusive para fins de locomoção veicular, sem obstáculos e burocracia excessiva”, pondera. Além disso, para maior alavancagem do processo é fundamental a definição de um valor mínimo, efetivo, a ser pago por m3 produzido de biogás/biometano aos produtores. Por fim, o engenheiro agrônomo lembra que é uma tecnologia inovadora, criativa e emancipadora dos produtores rurais em termos energéticos que vem sendo aperfeiçoada no Brasil há mais de 40 anos e no mundo há séculos.

Biogestores em Toledo

O processo de biodigestão de resíduos é conhecido há séculos no mundo. Em Toledo, o primeiro biodigestor instalado ocorreu somente no final da década de 1970. Era um “modelo indiano”, de propriedade da Família Angeli, na comunidade de Nova Videira. A finalidade do uso do biogás era o de substituir o gás de cozinha (GLP). Posteriormente, no final da década de 1990, uma propriedade, em Linha Três Bocas, instalou um biodigestor “modelo chinês”, de maior eficácia, que ainda se encontra em pleno funcionamento.

Os biodigestores retornaram à ordem do dia, motivado pelo aumento da emissão de Gases Efeito Estufa (GEE) na Represa de Itaipu, devido ao desenvolvimento de algas. Para a própria segurança do empreendimento, a partir de 2003, seus novos dirigentes consideraram fundamental a intervenção no sentido de mitigar os efeitos nocivos da emissão de metano para a atmosfera, provocada pela decomposição natural das algas, no fundo da represa. Iniciou-se o desenvolvimento de uma série de projetos piloto de geração de energia, a partir de diferentes modelos de sistemas de biodigestão, em especial, do denominado “modelo canadense”.

As produtoras e produtores rurais, em especial suinocultores e criadores de vacas leiteiras, são os principais protagonistas deste projeto, afinal, são eles os proprietários das criações animais que geram a biomassa residual (dejetos). Além deles, é importante destacar a participação da Itaipu Binacional, da Fundação Parque Tecnológico Itaipu (FPTI), do Centro Internacional de Energias Renováveis (CIBiogás), do Instituto Emater, da Unioeste, do Centro Internacional de Hidroinformática (CIH), da PUCPR-Toledo e, mais recentemente, da Compagas.

Por Ana Maria Ferrarini (Regional Curitiba)


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